dezembro 10, 2004

Todos os dirigentes deviam ser afastados diz Coroado

O ex-árbitro de futebol Jorge Coroado, hoje (Sexta-feira) em entrevista ao Diario de Noticias diz não colocar as mãos no fogo por ninguém e defende que «o futebol português precisava de fazer o que fez o espanhol na década de 70, em que se entendeu que para se fazer uma reforma das estruturas todos os dirigentes à data tinham de ser afastados e proibidos de voltar a cargos desportivos».

Ora bem, independentemente de Jorge Coroado ter sido árbitro até à bem pouco tempo atrás podemos debruçar-mos ao facto do porquê desta sua actual opinião, ou porque na altura em que era árbitro achava que estaria tudo bem? Mas vamos deixar estas questões de lado e debruçar-mos sobre esta sua actual opinião.

Jorge Coroado afirma que todos os dirigentes, deviam abandonorar, os seus cargos, ora a meu ver esta seria a resolução mais fácil e em principio a que daria mais cartas inicialmente, no entanto o «sistema» sendo o mesmo, bastava ter de esperar mais alguns anos para o mesmo ciclo de vícios se criar de novo, ou seja esta seria uma resolução temporária, a não ser que, para além desta resolução se passasse para a criação de um organismo profissional e independente de arbitragem em que cada «galo» ficaria no seu galho. Penso que só assim se resolveria grande parte do problema que está e tem vindo a estar no futebol português, que é a falta de transparência, principalmente.

Agora penso que o que há, ou melhor não há é vontade política e a nível do dirigismo do futebol em mudar as coisas, vejamos que por exemplo nada se mudou em relação aos moldes de competição nas Ligas profissionais, ou seja, projecta-se muita coisa mas muito pouco ou quase nada é aplicado, o que sendo assim o nosso futebol... estanca, e, não sai do mesmo.

Resta esperar-mos para ver os desenlaces deste nosso caso «Apito Doirado»...

Publicado por j_eagle em dezembro 10, 2004 02:43 PM
Comentários

Eu acho que ele tem razão, e os arbitros também depois de ler este artigo que vem nos comentários a seguir ao comunicado da SAD PORTISTA que está em comentarios no blogue terceiroanel.weblog.com.pt fico vacinado do futubol, passo a citar:

PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - PARTES - 0-1-2-3-4-5-6-7


Este comentário vem publicado no blogue www.terceiroanel.weblog.com.pt - clicar em cima de SAD FCPORTO a seguir ao Comunicado da SAD PORTISTA, Leiam que é muito curioso, e quem não faz comentários sou eu.
Comentários

PC E AMIGOS - PARTE 0

O clube de Pinto da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como
europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em
tamanha aventura. PC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pedroto, evitando
qualquer comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e
de mais ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que PC tomou
consciência do poder que tinha e que Reinaldo Teles começou a alimentar a sua grande
esperança de um dia vir a ser alguém no seu clube.
Reinaldo tinha Pinto da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste
último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera.
PC sentia-se um Don Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que
sempre estivera habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as
traições aos seus melhores amigos.
Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminho para os que iam
chegando e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder
governar sozinho e principalmente sem ter de dar muitas explicações.
Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube Pinto da Costa já tinha
esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora
continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares
com que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição.
O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram
oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano
muito ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luciano
D´Onofrio já tinha jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país,
mais propriamente a sul, aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas
redes ligadas ao tráfico de droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o
negócio!
Luciano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado
mais parecendo um bico, apareceu pela mão de Reinaldo Teles e recebeu a bênção de
PC.
D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em
diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma
pessoa de grande interesse para o clube. Pinto da Costa foi quem mais lucrou com a sua
vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e D´Onofrio
viu ali um grande negócio para si e para PC. Em todos os jogadores que fossem
negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua
percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das
primeiras comissões Pinto da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao
mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luciano D´Onofrio tinha ligações
com a Mafia italiana e que Reinaldo mais alguns familiares viveram sempre de
habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação
de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos
comunitários», costumava dizer Reinaldo, que um dia ficou deliciado quando em
Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reinaldo viu a
rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando situações do tipo
«leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves prestações». Mas era
sonhar muito alto.

Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade
que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube
tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como
aconteceu com Alberto Magalhães, reputadíssimo empresário.
PC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões,
não dava tréguas:
- Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste!
O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados
desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reinaldo Teles ia subindo na
hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de
futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem
grande contestação, pois nessa altura já Reinaldo tinha todo o seu staff de segurança
organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos
dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a
jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha,
recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada,
subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos.
Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição.
Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições
não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que
o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de
lançar alguns insultos ao presidente e seus pares.
- Filhos da puta, chulos, vão trabalhar!
Pinto da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reinaldo
Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas,
deu de imediato uma ordem em surdina:
- Fodam-me esse gajo!
Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do
estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não
sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio.
O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que
ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer.
O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade
com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade
que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre
esta onde de poder e segurança que Pinto da Costa construiu o seu império e
imperializou a sua própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a
vantagem de não poder ser apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que
justificassem qualquer tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda
mais seguro disso a partir do dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em
terras brasileiras que dava pelo nome de Pai João (Delane Vieira), um bruxo que não se
limitava aos orixás, fornecendo também a equipa de futebol com frasquinhos de vidro
que continham um guaraná em pó muito especial, esmagado por uma tribo de índios do
interior do Brasil. O «speed», normalmente recomendado para os gulosos do sexo, ajudava
os craques e, aliado à normal injecção de «vitaminas», tornava-os super-homens dentro
do campo. E era certo que a aparelhagem do anti-doping estava completamente
desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até este sector, a seu tempo, foi
devidamente controlado.
Entretanto, Reinaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as
melhores amantes para Pinto da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder,
mas ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reinaldo, tinha algumas
limitações, mas nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pinto, a quem continuava a
extorquir o dinheiro que queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa
de que um dia este viria a ser vice do futebol profissional.
- É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares
mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu.
Com estas palavras de Pinto da Costa, o Ilídio lá ia passando uns cheques e cobrindo
algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao
presidente.
O grande negócio acabaria por surgir.
Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Futre, e o
seu presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube
de Pinto da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guarda-costas, estava sempre bem informada de tudo quanto se passava na cidade e
essencialmente dos assuntos que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a
boa nova de que o presidente do clube espanhol estava em Portugal para falar com
Futre, foi de imediato colocado um plano de ataque em marcha, cujo nome de código
era «Caça à Peseta».
Apesar de Gil y Gil estar, no seu país, bem à altura de Pinto da Costa, quando veio a
Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e
combinou encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Futre para
Espanha. O bar era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um
pouco na penumbra, estava sentado Gil y Gil à espera do tal empresário quando
irromperam pela sala dentro quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o
rodearam e apertaram contra a parede, lançando o aviso:
- Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a
certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reinaldo, decalcando
o final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz.
Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gil y Gil quase se mijou
pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos
maiores clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as
pernas a tremer como varinhas verdes.
Gil y Gil não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura,
acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gil até se esqueceu de comprar um queijo
da serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmen, a sua amante de Madrid/Sul.
Já no seu território, contactou directamente com Pinto da Costa, e este, sem muitas
palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luciano D´Onofrio.
- O seu braço direito? - quis saber Gil.
- Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto – informou PC.
Gil y Gil ficou tão impressionado com a acção de Pinto da Costa que resolveu
oferecer um extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid.
- Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor – aceitou PC de pronto.
D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barros) de PC num clube italiano (Juventus) e a soma da venda de Futre e desse jogador vendido para Itália foi de 1
milhão e 200 mil contos, uma verba que PC nunca teria imaginado poder passar pelas
suas mãos. De imediato, PC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular,
prometendo aos seus parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente
para a compra de jogadores para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro
desapareceu como o fumo. Para amostra não ficou nem sequer um mísero escudo.
As ligações de Pinto da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas,
e isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no
patrão da sua empresa, Alfredo Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube.
Ninguém como Alfredo Costa conhecia a vida de Pinto da Costa e, por isso, sabia muito
bem que este andava a vivera além das suas reais possibilidades, entrando em outros
negócios e noutras sociedades, sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro.
Desconfiado desta situação, como presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfredo
Costa um dia interpelou Pinto da Costa sobre o milhão e duzentos mil contos da venda
dos dois jogadores, mas como resposta obteve apenas:
- Não tenho de dar contas a ninguém.
Alfredo Costa estava de pé frente à secretária de Pinto da Costa e quase não acreditou
no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo
desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de
presidente do Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Pinto da Costa a
abandonar a sua empresa.
Alfredo Costa não teve contemplações:
- Recuso-me a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter
indivíduos do seu quilate.
Pinto da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação.
Uma grande parte daquele milhão tinha sido investida em várias empresas com ligações
a familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por
falir. O dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do
seu presidente.
Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam
saber de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Pinto da Costa e Reinaldo Teles
também sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e
essas vitórias nunca haveriam de faltar.
Para deixar a empresa onde trabalhava, Pinto da Costa ainda teve que pagar sete mil
contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido
sem deixar rastos e tinha deixado de rastos PC, a contas com a justiça, por cheques
sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu
o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área
que se movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente
explorada. Todos os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse
uma gestão capaz de alimentar o seu presidente.
Reinaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol
foi afastado, e Reinaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago.
A vaidade pessoal de Reinaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez
mais chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também.
Pinto da Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a
estrela do espectáculo. PC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa.
Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as
raparigas da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu.
Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma
como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização
refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luciano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se
apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram
tratados e em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara
combinado, e para anular essas fugas, Pinto da Costa resolveu montar uma sociedade
secreta na Suíça para que existisse um maior secretismo. D´Onofrio era uma figura
envolta em algum mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia,
o que acontecia normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de
prestidigitador livraram-no de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luciano
não tivesse conseguido evitar alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta
ligação a um caso futebolístico que abalou o futebol francês (Olympique Marselha).
PC confiava cegamente no seu amigo Luciano.
- D´Onofrio, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e
venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas
podemos estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo
absoluto.
- Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o
Berlusconi.
Pinto da Costa não perdeu tempo.
- Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já.
Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de
compra e venda de jogadores.
O seu primeiro negócio foi com um clube francês (Matra Racing de Paris) cujo
Treinador (Artur Jorge) já tinha passado pelo clube de PC.
- Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que
tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Jorge
Plácido para vender a um clube francês.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto:
- Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia.
- Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo.
D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no
mundo das vigarices, perguntou:
- Como vai ser feito o negócio?
- O nosso clube vende o Plácido à nosso empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo
ao clube francês por 160 mil contos.
- Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube.
- Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já
perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais
adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a
Reinaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.
Logo que pôde, encontrou-se com Reinaldo Teles e convenceu-o a falar com o
presidente.
- Reinaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar
disso ao presidente.
Reinaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir.
- Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao
presidente.
- Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá.
- Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas?
- As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol
dá, podemos trabalhar à vontade.
Reinaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de
Luciano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto.
Pinto da Costa ouviu atentamente Reinaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele
queria ficar de fora.
- Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhor
a situação.
Reinaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada
mas, passados dias, voltou a falar do assunto.
- O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto
directamente com D´Onofrio.
De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia
começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do
clube à portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou
nada, porque a rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto,
Pinto da Costa sentiu o perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha
consciência de que inimigos era coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões
de pessoas ligadas ao grupo que actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se
terminar com o negócio da cocaína que começava a ser vendida um pouco
descaradamente aos próprios jogadores de futebol do FC Porto.
Pinto da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia
muitas horas de espertina, no fim de contas.

Publicado por: MATA-PORCOS em dezembro 9, 2004 12:11 PM

(sem comentários e um agradecimento ao
www.terceiroanel.weblog.com.pt)

CONTINUAÇÃO DO - PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - 1

PC E AMIGOS - PARTE 1

Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um
copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade (Fernando
Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos,
quando Pinto da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem
precisar de recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a
marginais e arrivistas.
O jogador começou a conversa:
- Este mundo é mesmo ingrato.
- A quem o dizes - suspirou o jornalista.
- Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Tavares Telles me vigarizou em
mil contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro
foi um ar que se lhe deu...
- Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te
despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar?
- Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas
esse moço de recados, o Octávio, vai ter um bonito funeral.
- Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar
no bar um elemento que não conseguiu identificar - o tipo sabe enganá-los com falinhas
mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director
do meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra?
- Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa - Este mundo não
vale a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a
pena metê-los todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por
convencer os próprios santos. Bah!, que se lixem esses gajos...
- Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres.
Mas Fernando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e por
momentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados,
correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o
mundo se resumia ao estádio.
- Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um
orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma
música do Rui Veloso que se ouvia em fundo.
Fernando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de
tom:
- Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como
aquela besta do «capitão» (João Pinto), que ia para os estágios sempre com o mesmo
livro, continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais
para trás. Mas corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até
dizem que tenho voz radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande
comentador desportivo. Ah, mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do
clube, isso sim, isso iria encher-me as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que
só depois de o homem morrer é que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão
cedo. Não sei como, mas conseguiu a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da
Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a mim é que ela não aparece...
Fernando estava inconsolável:
- Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro
clube, logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe
algum dinheirinho para o bolso e o favorito do Pedroto.
Aqui Fernando teve uma ideia:
- Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pedroto ao nosso
estádio?
A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, PC teve dela conhecimento.
Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar
cravar um espinho na pata.
A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e
aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais
fizeram eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a PC o que
pensava da ideia. PC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por
ficar esquecido.
- O Pedroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele
merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - interrogou PC os botões do seu
novo fato príncipe-de-Gales.
Joaquim Teixeira) foi um jogador muito discreto. O melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter aconselhado a parar com aquilo, pelo menos, durante 24 horas, sob o risco de bater a bota. Teixeira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando uma grande penalidade que salvou a equipa contrária da descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo de suspeitas, pois o Teixeira era mesma assim - às vezes acertava, outras não.
Mas a história de Teixeira pouca relevância teria na história da vida de Pinto da
Costa, se o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de
ser apresentado por António Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade,
não faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de
iniciadas até às seniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia uma ascensão
económica que tinha os dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto
durasse.
Com o Teixeira a controlar as miúdas e o António Oliveira a dar a táctica, PC tinha a
vida nocturna que queria, mas, ao contrário de Reinaldo, continuava muito agarrado ao
dinheiro, não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de
Reinaldo, que aí foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um
conhecido jornalista algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se
deslocava à Madeira. Sempre adiantados dois passos em relação aos restantes, António
Oliveira foi-se afastando do grupo, mas nunca se desligou. Joaquim Teixeira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como um doutor, deixando de ser adjunto do António - então um treinador de mediano sucesso - para se tornar técnico principal. O
conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por se aliar a um feeling muito
especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma farmácia próxima de
Paredes, conheceu o sucesso.
- O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro no pelados e hoje
eis-me a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Teixeira para a
mulher, enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancún, onde uma
conhecida apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques
que nesse ano tinham surgido na ribalta.
- Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos
figos! - desabafou, longe de saber que nesse momento, PC tinha engendrado mais um
plano diabólico.
O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores
são a mercadoria: há que contar também com o treinador.
- E os treinadores, Reinaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu PC,
merecendo o assentimento de Reinaldo.
- Vai ser canja - continuou o presidente. Fulano precisa de clube, e nós arranjamos
esse clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não
desce; não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os
anjos-da-guarda.
- E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente?
- Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o que
for preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam
a dever favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão
directamente para os nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes
ficam garantidos para o nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel
podem ir asilar para esses clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados.
Isto é o ovo de Colombo.
- De quem?
- De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não
enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão...
- Quem? O da televisão?
- Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que
estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que me
disse a Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube...
- E que tal?
- Para o Colombo não correu mal...
- Não presidente, que tal a Nancy?
- Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes...
- ...o beijo pressionado?!
- Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não
desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um
lobby...
- Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas?!...
- Calado - prosseguiu, já algo irritado, Pinto da Costa. Vai ser assim: andam por aí
uns rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que
muitos e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores
estrangeiros. Vamos acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes,
que passarão a perguntar-nos que treinador é que podem contratar. Nós é que o
escolhemos, percebes? Mas o rapaz que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas
muitos favores, entendes? Para além de passarmos a controlar o que já sabes, ficamos
também com a certeza de que eles farão tudo para derrotar os nossos adversários
directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!... percebeste agora?
- Mas, ó presidente, isso é genial!
- Claro...
O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o
Joaquim Teixeira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de PC, só um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não
bastasse, PC foi pedindo alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais
abonados, que ficavam satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de PC ante as
câmaras dos repórteres-fotográficos. Um deles, o Manuel Lopes Rodrigues, até se deu
ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos empresários da região, com estes, a troco
de um galhardete autografado, a entregarem nas mãos de PC uma generosa quantia
«para ajudar o clube mais representativo da região».

Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio
da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorin) que, nos
minutos finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se
supõe, apenas para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a
mão e dando assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar
na corrida para o título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi
visto foi a fazer compras em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente
numa quinta dos arredores de Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um peru
com uma mensagem de PC.
E o Teixeira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia
subir mais. PC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor
Peter, defensor dos princípios de competência.
- Reinaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o
ultrapassares, passar a ser um incompetente, percebes?
Reinaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma
cabeça que trabalhava a «carvão».
- O Teixeira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a
treinar a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e
caladinho, e isto é se quer continuar a passar férias a Cancún.
O Teixeira concordou, apenas com um pedido. No final da próxima época, preferia ir de
férias para as Seychelles!
Publicado por: MATA-PORCOS em dezembro 9, 2004 12:40 PM

CONTINUAÇÃO DO - PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - 2

PC E AMIGOS - PARTE 2

O bar de Reinaldo começou a ser ponto de encontro para aqueles que queriam
usufruir dos favores da arbitragem. Dirigentes e árbitros encontravam-se assiduamente
no local, mas nunca tinham um contacto directo, uma situação que foi sempre muito
bem controlada, para que não houvesse fugas de informação, tanto em relação a favores
como aos preços estipulados.
Lentamente, foi criada uma bem organizada rede de corrupção na arbitragem gerida,
por cima, por Reinaldo Teles, contando este com um assistente directo: Jorge Gomes.
Os árbitros das mais variadas regiões, logo que pisavam o chão da cidade, iam de
imediato ao encontro de Reinaldo. Não pediam nada, e muito menos ofereciam qualquer
tipo de favor; aguardavam antes, pacientemente, por uma abordagem. No início,
estabeleceu-se uma certa confusão promíscua no negócio, e esta situação não era a mais
aconselhável. As pessoas começavam a falar de mais, pois já nada passava
despercebido, e Reinaldo Teles teve de reorganizar o negócio, colocando as cartas na
mesa de Pinto da Costa.
- Eles parecem moscas a cair no meu bar. A coisa já está a dar muita bronca.
- Que coisa?
- Aquele negócio dos árbitros. Começou a insinuar-se que eu era capaz de resolver
tudo, e os gajos não me largam. São os dirigentes de um lado e os árbitros do outro.
Nunca pensei que esta situação pudesse atingir este nível. Uns só querem vitórias; e os
outros, dinheiro...
- Deixa lá. Ao menos, fica toda a gente satisfeita. Esse negócio tem de começar a ser
gerido de uma forma mais segura. Isso vai dar muito dinheiro, mas é necessário saber
fazer as coisas. Roma e Pavia não se fizeram num dia.
Estava dado o mote para o arranque de uma organização mais capaz e eficiente, e o
plano foi colocado em marcha. Havia receptividade de parte a parte e isso já era um
bom avanço. O tempo em que o clube gastava dinheiro para controlar algumas
arbitragens já tinha passado. Os árbitros sabiam exactamente onde estava o poder e
como se chegar a ele, e se em paralelo se podia ganhar dinheiro, muito melhor.
Pinto da Costa estava consciente de que todos o temiam. Não tinha o mínimo de
pruridos quando queria esmagar um inimigo. Não fazia ameaças, mas os que se
mostrassem contra o seu poder podiam ter a certeza de que obteriam uma resposta de
acordo com a situação e sem qualquer tipo de contemplações. Perante tal quadro, era
muito mais proveitoso estar ligado a Reinaldo Teles. Para além do dinheiro que podiam
ganhar, tinham toda a cobertura possível dentro do Conselho de Arbitragem, área onde
Pinto da Costa e os seus pares se moviam com bastante à-vontade, contando com a
colaboração de um presidente da sua inteira confiança. Pinto da Costa gostava de
evidenciar de uma forma discreta esse poder. Era uma forma de fazer saber que quem
mandava era ele. Quem estivesse sob a sua protecção tinha as melhores nomeações e as
melhores classificações. E protegia quem se aliasse a ele, incentivando a aproximação
dos mais indecisos.

PC queria uma organização perfeita e o controlo absoluto sobre todas as situações. Mas
os jornalistas eram indiscretos e perigosos para o negócio. Não era muito saudável que
se levantassem muitas suspeitas, e esse sector tinha também de começar a ser muito
bem controlado. Pinto da Costa sabia insinuar-se e cativar. Quando lhe convinha,
promovia encontros com directores de jornais e, de uma forma desinteressada,
começava a gabar-lhes os feitos e o trabalho. Incentivados pela guerra estabelecida pela
concorrência e sabendo que quem obtivesse maior número de informações junto dos
grandes clubes era quem mais vendia, ninguém se negava a esses encontros. Era
impossível, porém, controlar toda a gente e, através de algumas acções de intimidação,
estabeleceu-se um clima de medo para os que teimavam em mostrar-se independentes.
Normalmente às quartas-feiras, o presidente reunia-se com os jagunços e indicava-lhes
qual o jornalista que tinha de ser encostado e insultado. Nos dias dos jogos, os
capangas passeavam livremente pelo camarote da Imprensa e, através de insultos e
ameaças, exerciam uma tremenda pressão sobre alguns jornalistas. A intenção era clara:
promover o medo e o consequente silêncio. Durante a semana, quem tivesse o
atrevimento de não analisar uma situação conforme lhes convinha podia ter a certeza
que tinha à sua espera na primeira oportunidade alguém com o seu jornal na mão a
ameaçar que o fazia engolir aquele pedaço de papel.
Pinto da Costa era mestre na política da divisão, e ao longo dos tempos foi criando
divisões entre os jornalistas, porque tinha consciência do perigo que representavam
quando todos se resolvessem unir e impor os seus direitos. A organização era-lhe
favorável, e ele sabia como jogar todos os seus trunfos. Um negócios implantado no
seio da arbitragem era exactamente aquilo que lhe faltava. A Olivedesportos e a agência
de viagens Cosmos estavam a facturar como nunca. Tinha conseguido vários
exclusivos que lhe permitiam efectuar o mais variado tipo de operações,
sobrefacturando sem medo de poder ser contestado. Tinha o presidente federativo na
mão, e até nem foi muito difícil conseguir isso. Dava-lhe gozo colocar os da capital a
trabalhar para a sua organização. Um cartão de crédito sem limite e umas viagens
oferecidas ao casal que comandava as operações federativas bastaram para que pudesse
facturar alguns milhões. Pinto da Costa estava adiantado em relação a todos os outros.
Já há muito que tinha entendido que o futebol era a indústria que mais rendia em 90
minutos.
Mas PC não era infalível. Também cometia os seus erros. Quando, através do agora
grande amigo e sócio camuflado, Joaquim Oliveira, ofereceu um cartão de crédito sem
limite ao federativo e à sua mulher, nunca lhe passou pela cabeça que a mulher deste,
numa das viagens da nossa selecção, se lembrasse de utilizar o respectivo cartão em
compras pessoais, gastando quase dois mil contos. O cartão foi de imediato cancelado.
Numa viagem ao Luxemburgo, onde o clube de PC foi disputar um jogo particular, um emigrante português, que se dedicava à pintura de automóveis e também fazia uma perninha como empresário de jogadores de futebol, conseguiu criar uma grande amizade com PC e Reinaldo. O indivíduo tinha boa pinta e falava várias línguas.
Era inteligente e mostrou-se conhecedor do ramo. E como era necessário preencher a
vaga de Luciano D´Onofrio, a solução estava mesmo ali à mão. José Veiga tinha todos
os predicados para entrar na organização e, num ápice, apareceu em Portugal como
sócio de Joaquim Oliveira. Grandes jogadores começaram a passar pela sua mão.
Ganhou prestígio, mas a sua ligação aos Oliveira limitava a sua acção.

PC estabeleceu então uma nova estratégia:
- O José Veiga tem-se mostrado competente e capaz. Tem-nos dado muito dinheiro a
ganhar, mas está na hora de se desfazer a sociedade.
Joaquim Oliveira não entendeu onde o presidente queria chegar e não hesitou em
perguntar:
- Mas não estou a entender. Se ele nos está a dar bom dinheiro, porque é que vamos
desfazer a sociedade?
Então explicou o seu plano:
- Se desligarmos o José Veiga da nossa organização, simulando um desentendimento,
ele fica mais livre para poder trabalhar com outros clubes, nomeadamente com os
nossos maiores adversários. Com esta acção, para além dos lucros que daí podemos
retirar, ficamos com a possibilidade de minar os nossos adversários por dentro. Ficamos
com o campo livre para lhes vendermos jogadores com rótulo dourado, mas fora de
prazo, e também podemos vender os seus melhores jogadores para clubes estrangeiros,
criando, assim, focos de instabilidade ao mesmo tempo que se lhes diminui a força.
Joaquim Oliveira nem queria acreditar no que ouvia. Aquele homem era de facto um
manancial de inteligência. Dois dias depois, estava desfeita a sociedade e, tal como fora
previsto, José Veiga tornou-se num dos empresários mais conceituados da nossa praça.
Mas a completa organização do sector da arbitragem era o negócio que agora fazia
perder mais tempo a PC. Reinaldo Teles tinha descoberto o ovo de Colombo e revelado
jeito para controlar a situação.
Com um tiro podia matar com facilidade dois coelhos. O seu clube não tinha dinheiro
para andar a gastar em arbitragens, e a sua política nunca foi a de gastar, mas sim a de
cobrar. Toda a gente sabia que ele não era homem endinheirado, e alguns dos que, nos
primeiros anos, ainda ajudaram o clube quando se tornou necessário, agora fugiam a
essa situação, porque se sentiam traídos com os negócios efectuados por PC. Era a velha
filosofia de que era possível enganar toda a gente durante muito tempo, mas não
sempre. Como gostava de dizer, «não corre mais o que caminha, mas sim o que mais
imagina». Por isso, tornava-se necessário pensar sempre em novas estratégias.
Quem emprestava dinheiro queria garantias, e o clube ia ficando hipotecado a essas
situações, perdendo algum património sem que ninguém levantasse a voz para travar
esse tipo de situações. Pinto da Costa sentia-se inatingível. Estava acima do poder e até
o desafiava, sem ser punido por isso. Tinha a força do seu clube por trás. As vitórias, os
golos e as alegrias. Tudo era feito em nome do futebol.
Pinto da Costa sabia que tinha muitos inimigos, e não podia falhar dentro do relvado.
O controlo sobre árbitros era a solução que mais garantias dava para que se continuasse
a somar títulos, e Reinaldo Teles tinha a solução na mão, sem gastar dinheiro com isso,
muito pelo contrário, ganhando milhares. Reinaldo limitou-se a deixar germinar o
negócio. Não era necessário movimentar-se. As pessoas vinham ter com ele para
estabelecer o primeiro contacto. Já não se negociava com prendas, mas com dinheiro
vivo. Foi mesmo estabelecida uma tabela, mas Jorge Gomes não estava muito de
acordo.
- Isso das tabelas não tem jeito nenhum. Os jogos têm de valer pela importância que
têm.
- És capaz de ter razão, mas aqui no bar está a dar muita barraca. Temos de falar
com o presidente.
Pinto da Costa já se tinha apercebido da situação e também não andava muito
satisfeito com a exposição pública. Havia que evitar um devassa que, de dia para dia, se
tornava mais fácil de empreender, principalmente da parte dos inimigos do costume. Ele
mesmo era cliente assíduo do bar e não queria ser visto no local na companhia de
árbitros e muito menos envolver-se directamente no negócio.
- Vamos «lavar» a imagem que está a passar lá fora. Esta situação tem que ser
alterada. Muito embora utilizes o teu bar para o primeiro contacto, combinas depois os
encontros para o restaurante do teu primo. O local é mais decente, menos visto, e não é
tão frequentado por gente do futebol. E sempre tem ao lado um bom jardim que dará
sempre para meditar um bocadito...
- Também acho que essa é a posição mais acertada. Vamos mudar isto, e já -
concordou Reinaldo.
Com uma organização mais eficiente, Reinaldo Teles elaborou uma carteira de
árbitros seleccionados por preços, acessibilidade, categoria e forma de actuar. O prémio
de cada favor era estabelecido conforme a importância do jogo, e de início, Reinaldo
cobrava apenas um terço do estabelecido, mas, mais tarde, quando verificou que os seus
favores eram cada vez mais requisitados, passou a cobrar 50 por cento.
Ninguém discutia preços nem duvidava do empenhamento de Reinaldo Teles, que
sempre que lhe era possível marcava a presença no jogo onde estabelecera o seu melhor
negócio.
Mas o volume de pedidos cresceu tanto, que Jorge Gomes começou a ser mais
requisitado, entrando no negócio a todo o vapor. Enquanto Reinaldo assumia os seus
compromissos e as suas responsabilidades no negócio, Jorge Gomes estava mais virado
para o lucro fácil. Fazia-se intermediário, cobrava a respectiva verba e nem sempre os
árbitros viam a fracção combinada, o que dava origem a alguns protestos rapidamente
silenciados com as ameaças do costume.
Jorge Gomes foi mais longe. Com a ambição de ganhar tudo, a maior parte das vezes
nem sequer falava com os árbitros e esperava simplesmente que os resultados fossem
favoráveis para ficar com a respectiva verba. O negócio até era muito mais rentável na
2ª Divisão. Os jogos eram menos vistos, os árbitros estavam menos expostos e toda a
gente queria subir. Foi num negócio entre duas equipas da 2ª Divisão que Jorge Gomes
foi pela primeira vez desmascarado nas suas vigarices.
O árbitro era alentejano, mas tinha um compadre no Porto, proprietário de um
restaurante. O lugar era típico e até se cantava lá o fado. Um representante de um dos
clubes foi falar com o dono desse restaurante, levando uma proposta em carteira.
- Sabemos que és compadre do João Cravo, e ele vem apitar, no domingo. Não
podemos perder. Tens de nos ajudar.
- Está bem, eu falo com o homem.
- Quanto é que achas que lhe podemos dar?
- Mil contitos, mas 200 são para mim.
- Tudo combinado. Trata do negócio.
Passados poucos dias, o mesmo elemento desse clube surgiu no restaurante do
compadre de João Cravo para lhe dizer:
- Não trates de nada, porque o meu vice e o meu presidente foram falar com o
Reinaldo Teles, e ele garantiu que tratava do assunto todo. Para tratar disso, já ficou lá
com dois mil contos.
- Mas eu resolvia isso com mil.
- Oh, pá, nem me quero meter nessa merda! Mandaram-me falar contigo e foram ao
bar do gajo e ele sacou-lhes dois mil contos. Fiquei bera com isso e obriguei-os a
prometerem-me que os teus 200 contos estão garantidos.
- Tudo bem, não há problema. O Reinaldo que me telefone que eu trato do encontro.
O homem vem de véspera e janta no meu restaurante.
Na véspera do tal jantar, Jorge Gomes telefonou ao dono do restaurante e combinou o
encontro com o árbitro. Quando este chegou, foi logo posto ao corrente do que se estava
a passar e esperou até quase de madrugada por Jorge Gomes. Como esta não aparecia,
acabaram por desistir, embora mantendo a esperança de que ele telefonasse. Mas até à
hora do jogo... nem um telefonema nem uma palavra.
O clube que entregou os dois mil contos a Reinaldo ganhou, mas sem qualquer
interferência do árbitro. No final, de regresso ao restaurante do seu compadre, o árbitro
voltou a falar no assunto.
- O Jorge Gomes não me ligou nem disse nada.
- São uns filhos da puta. Ficaram com os dois mil contos e nem sequer se dignaram a
falar comigo. Esses gajos são burros como portas. Andam a dar dinheiro a esses chulos.
De facto, os dois mil contos ficaram na posse da organização de Reinaldo, sem que
este tivesse o mínimo trabalho ou interferência no desenrolara do jogo. E o dono do
restaurante nunca mais viu os tais 200 contos.
Jorge Gomes sabia jogar com a situação e tinha consciência de que, como não se
podia falar abertamente destes negócios, dificilmente se descobriria este tipo de
vigarice.
Uma outra vez, no final de um jogo em que o árbitro foi um internacional nortenho, o
presidente do clube que venceu acompanhou, no final da partida, esse árbitro ao seu
automóvel e pelo caminho disse-lhe abertamente:
- O Jorge Gomes já falou consigo?
- Comigo? Não. Porquê?
- Eu dei-lhes três mil contos para si e ele garantiu-me que já lhos tinha dado.
De súbito, começou a chover e, no momento em que o presidente desse clube saltava
um charco de água e abria o guarda-chuva para abrigar o árbitro, ambos verificaram que
Jorge Gomes, embrulhado numa gabardina, se dirigia a eles.
O árbitro não hesitou, e mesmo ali agarrou-o pelos colarinhos, enquanto lhe dizia:
- Ó meu filho da puta, andas a governar-te à minha custa!
- Tem calma, eu vinha agora trazer-te o dinheiro.
O presidente resolveu então intervir, para evitar que aquilo se transformasse num
escândalo.
- Tenham calma. Vamos resolver isso civilizadamente. Você ainda me disse ontem
que já tinha dado os três mil contos a este homem.
- É que ainda não tive oportunidade de o encontrar.
- Tem aí o dinheiro? - perguntou o presidente.
- Não.
- Então avise o Reinaldo Teles que amanhã vou ao bar dele e se não me devolverem
os três mil contos, armo um escândalo que nem vos passa pela cabeça.
Foram muitos os casos como este. Jorge Gomes estava a comprometer o negócio com
as suas vigarices, mas o certo é que Reinaldo lhe aparava todos os golpes, e PC
começou a desconfiar que eles estavam feitos, muito embora não revelasse o facto para
não perder a confiança de Reinaldo, muito menos agora, que ele lhe tinha apresentado a
Maria. Uma rapariga por quem se estava a apaixonar e para a qual até arranjou um
emprego no clube.
Semanalmente, eram muitos os milhares de contos que se movimentavam em
negócios com os árbitros. Reinaldo Teles e Jorge Gomes já evidenciavam sinais
exteriores de riqueza. Os negócios eram realizados em dinheiro vivo, mas, quando isso
não acontecia, também não havia problema para controlar a situação e não deixar
vestígios. Reinaldo recebia os cheques, trocava-os no casino, levantava dinheiro na
troca de fichas e entregava em dinheiro aos árbitros. Não deixava qualquer tipo de vestígio.
No entanto, esta situação levou-o a viciar-se no jogo. Com alguns montes de fichas
na mão, começou a não resistir à tentação de arriscar algum na roleta e perdeu muitas
centenas de contos. Jorge Gomes não gostou da situação e por diversas
vezes tentou fazer com que o seu amigo deixasse o jogo.
- Não gastes dinheiro nessa merda. Não vês que ninguém ganha, e quando ganha, no
dia seguinte deixa-se o dobro.
- Deixa lá. Isto dá-me gozo, e o dinheiro é dos camelos. Eu controlo a situação.
Posto isto, apostou tudo o que tinha no preto. E ganhou.
- O que é que eu te dizia, Jorge?...

Publicado por: MATA-PORCOS em dezembro 9, 2004 02:50 PM

CONTINUAÇÃO DO - PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - 3

PC E AMIGOS - PARTE 3

Pinto da Costa e Reinaldo Teles tinham encontrado nos escalões inferiores as suas
melhores fontes de receita nas negociatas directamente relacionadas com processos de
corrupção na arbitragem. O nível dos dirigentes era mais baixo, e a vaidade dos
endinheirados empresários que procuravam o futebol para evidenciarem a sua posição
social estava a ser soberbamente explorada.
Pinto da Costa esfregava as mãos.
- Como é fácil ganhar dinheiro no futebol. Quando assumi a presidência do clube,
nunca imaginei poder chegar a esta situação e ganhar tanto dinheiro.
- Mas, desta vez, veja lá se tem mais cuidado com os investimentos que faz. Siga o
meu exemplo; gasto algum no jogo, mas estou sempre bem de vida - juntava Reinaldo
Teles, sempre prudente.
- Isso não é de admirar. O teu negócio dá sempre. Agora estás a ver-me a gerir uma
casa de putas? Toda a gente me caía em cima.
- Não é bem assim. Vejam o meu exemplo. Não é segredo para ninguém que sempre
vivi à custa da prostituição. Sim, porque não tenho as gajas para andarem a fazer
cócegas aos clientes e eu não ganhar nenhum. Ninguém vai ao meu bar beber um copo
porque o whisky de lá é muito bom ou a música óptima.
- Nisso tens razão. A maior parte do whisky que lá vendes até está marado! Só
mesmo as gajas é que são boas. Por falar nisso, já há muito tempo que não me
apresentas uma novidade.
- E a Maria?
- Adoro aquela gaja. Pelo menos agora tenho-a junto a mim mais tempo e sem
ninguém desconfiar de nada. Mas isso não quer dizer que não vá provando uma
daquelas novidades que vão aparecendo.
- Estou à espera aí de umas gajas novas que vêm da Rússia e hei-de arranjar-lhe
alguma coisa. Mas, voltando à conversa anterior, não concordo muito consigo quando
me diz que ter um bar de alternos é mau e que não dá prestígio. Você é testemunha de
que esses gajos todos não me largam e estão fartos de dizer que sou um tipo porreiro.
Até me querem fazer uma festa de homenagem. Não vê, nas viagens ao estrangeiro que
fazemos com o clube, as mulheres deles a juntarem-se à minha sem qualquer tipo de
preconceito?! Toda a gente sabe que é a minha mulher que gere as putas, que lida com
elas todos os dias e, sabe uma coisa: mulheres dos nossos vices e de alguns dos
acompanhantes que habitualmente nos seguem, fizeram-se grandes amigas dela e
algumas até puxam conversa para saberem como é o ambiente no bar. Isto é um mundo
de hipocrisia, e o que é necessário é saber viver nele.
- Então eu não sei disso!? Eu levo muitas vezes a tua mulher aos jantares que os
clubes estrangeiros nos oferecem, enquanto tu ficas com os jogadores.
- Bem, mas aí eles não conhecem a Luísa. E ela até tem boa pinta.
Pinto da Costa ouviu o telefone tocar, levantou-se do maple onde estava sentado e foi
atendê-lo na sua secretária.
- Tudo bem, obrigado.
Após uma curta pausa para ouvir o seu interlocutor, PC puxou uma folha de papel e
escreveu um nome.
- Já sabia que ele nos ia nomear esse árbitro. Fui eu que lho pedi pessoalmente. Sabe,
o jogo é importante e não podemos arriscar... OK! Até logo e obrigado. Era o Adriano
Pinto - disse PC.
- Ele está a ajudar-nos bastante.
- Que remédio ele tem. Se não fosse assim, tirava-lhe o tapete.
- Mas ele ajudou-nos bastante no início e pode ajudar-nos ainda mais.
- Sei perfeitamente que tenho aprendido muito com ele. No início, foi o Adriano que
me abriu os olhos e me ensinou que caminhos devia percorrer para ganhar os títulos que
ganhámos. Mas agora quem manda no futebol sou eu. A força está do nosso lado, e se
ele não fizer o que mandamos, não tenhas dúvida que lhe tiro o tapete, e ele sabe disso.
Reinaldo Teles lembrou-se do quanto Adriano Pinto era importante em toda a
estratégia estabelecida. Só a sua amizade já era bom para o negócio que começou a ser
montado.
Pinto da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir
a sua organização. Reinaldo Teles e Jorge Gomes continuavam a dar todo o apoio nos
negócios com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta
acção, iam ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais
os árbitros na mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses
árbitros viessem apitar o seu clube.
Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a
Reinaldo Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não
tinham força moral para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo
corria da melhor forma, e Reinaldo teve consciência de que não dominava o sector
conforme julgava, quando, por diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele
desenvolvidas.
Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reinaldo Teles foi
contactado no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia
jogar com outro que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado,
comprometendo-se Reinaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto
para si. O árbitro era da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da
cidade por Jorge Gomes e Reinaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a
verba combinada no domingo à noite ao restaurante do primo de Reinaldo.
O clube protegido por Reinaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por
3-0 com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo
estava iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o
presidente do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reinaldo e
conhecendo o montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina
do árbitro e, com o descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua
proposta ao árbitro e fiscais de linha.
- Sabemos que Reinaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui
mortos.
Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas,
colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando
disse:
- Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida.
Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O
inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta à situação, que o jogo
terminou com um resultado de 4-3.
Reinaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro.
O certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade.
Reinaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da
situação, e Pinto da Costa avisou-o muitas vezes.
- É necessário ser duro e inflexível.
Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro
algarvio que foi apanhado com a «boca na botija».
Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francisco Silva revelou uma
grande ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reinaldo
Teles. Mas depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos
escândalos a que ficava obrigado.
Reinaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado
várias vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar
quanto tinham dado a Reinaldo ou a Jorge Gomes. Achou que aquilo era uma
exploração e resolveu actuar por conta própria.
Pinto da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reinaldo Teles do perigo que
aquela atitude constituía.
- Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes
de um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto.
Reinaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do
presidente a pensar na forma como deveria actuar.
Jorge Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve
contemplações.
- Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende.
Reinaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer:
- Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia.
Só temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo.
A oportunidade não tardou a chegar. Francisco Silva pedia que nem um cego, e a
informação tão desejada acabou por chegar.
O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourenço Pinto) era da total confiança de
Pinto da Costa e deu-lhe a informação tão esperada.
- Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Rocha (Manuel Rocha, presidente do
Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma
emboscada. O Rocha leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois
entramos nós em acção.
- Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora.
Quando se viu desmascarado, o Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada.
Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o
assunto para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Silva, mas o escândalo
rebentou e não foi possível segurar a situação.
PC e Reinaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel
de anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o
aviso surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu
à nossa protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais
vale ganhar menos mas estar devidamente protegido».
O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a
Reinaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A
árvore continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época.
O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial,
tal era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheque voavam de mesa para
mesa, desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
José Silvano, um árbitro com algumas dificuldades na vida, devido aos maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma carrinha e falou com Reinaldo para lhe emprestar três mil contos de modo a efectuar o negócio. Reinaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o árbitro levou os três mil contos.
Quando Reinaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto
espantado:
- Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo?
- Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi
apenas um investimento. Nós vamos precisar dele.
Passadas poucas semanas, o clube de Pinto da Costa lutava pelo título com o seu
principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação
difícil mais a norte do País. PC chamou Reinaldo e explicou-lhe a situação:
- No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar de qualquer maneira, e as
coisas não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro.
Reinaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o
número do árbitro.
Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reinaldo identificou de
imediato:
- Olá, estás bom?
- Quem fala?
- É o Reinaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro
que te emprestou.
- Mas agora não tenho essa verba...
- Mas tu prometeste!!!
- Claro que prometi, mas as coisas correram mal.
- Sabes que o presidente tem um cheque?
- Sei. E o que é que ele vai fazer?
- Nada, se tu te portares bem.
- Olha que porra! Até parece que ando a portar-me mal!
- Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de
ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar.
- Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo.
Mas vê lá se me toca alguma coisa.
- Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos.
No dia desse jogo, José Silvano passou pela maior vergonha para dar a vitória ao clube de PC, inventando uma grande penalidade que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras. Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque normalmente aconteciam no «jeep» do comandante da GNR.
Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado.
Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca
do cheque dos três mil contos que tinha passado a Pinto da Costa, mas este nem sequer
o recebeu, mandando recado por Reinaldo:
- O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te
fez. São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro.
- Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso?
- Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas,
não disse? E vais ver que não há.
- Como é que então vais resolver essa situação?
- É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós
ficamos com o dinheiro e abatemos à dívida.
- Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa.
- Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que
connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa merda
dos três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e
muito mais.
De facto não faltaram jogos a José Silvano. Reinaldo não se cansava de lhe arranjar
nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi
efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro os mais variados
tipo de chantagem.
Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro ficou de tal modo hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão. Algures no Golfo Pérsico, onde tentava montar um negócio de camelos, o pobre árbitro dizia mal da sua vida:
- Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançam-na pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!

Publicado por: MATA-PORCOS em dezembro 9, 2004 03:09 PM


Publicado por ramos às 09:41 AM | Comentários (1)

CONTINUAÇÃO - DE - PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - PARTES 4-5-6-7
Este comentário vem publicado no blogue www.terceiroanel.weblog.com.pt - clicar em cima de SAD FCPORTO a seguir ao Comunicado da SAD PORTISTA, Leiam que é muito curioso, e quem não faz comentários sou eu.
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CONTINUAÇÃO - DE - PINTO DA COSTA E SEUS AMIGOS - PARTES 4-5-6-7

CONTINUAÇÃO PARTES 4 - 5 - 6 - 7


PC E AMIGOS - PARTE 4

José Silvano era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a
Reinaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no
meio de toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os
árbitros que mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reinaldo Teles eram aqueles
que apareciam mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à
troca de nada.
Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava,

Afixado por: xafarica em dezembro 10, 2004 03:04 PM